Wednesday, July 27, 2022

Tabela espelho

Dói absolutamente
viver ausente.
Não menos dói
viver-se ciente
de que se é ausente.
E nada dói
com tanto fervor
que não sentir
essa mesma dor.

Monday, July 18, 2022

Janela fechada para a rua
e aberta para dentro
do torso que sua.
E o vento que não perdoa
enregela os ossos
como aguda coroa
de vidro quebrado.
Tenho...
caráter não insulado.
O vento rodeia
e em descida espiral
zumbe aos zigue zagues
zoando na zona final
e distribuindo por mim
as sementes do mal.
Não posso abrir
janelas rasgadas
nem encerrar
janelas seladas.
Nem na poesia,
nem sequer
nos contos de fadas.

Tuesday, March 29, 2022

Karabakh


Não chove menos na frente de batalha
do que nos campos irrigados.
A lama mantem-se espessa,
grude-te os pés pesados,
pede-te que regresses.

A arma pesa,
a alma pesa,
uma mata e outra morre;
Os olhos turvos,
os ossos curvos
alguém grita, alguém corre.

Tu que lutas pela tua terra fora da tua terra.
Tu, cuja mãe e irmã rezam de joelhos esfolados
sem mais lágrimas que lubrifiquem a alma.
Tu que tens apenas dezoito anos.
Um dia eu lutarei por ti.

Saturday, November 27, 2021

Escorre delicada a seda sob a tua perna
delgada,
cabelo fantasma,
estrela em quarentena
e em risco de supernova.

Pungente aroma a ópera,
cantata,
ampulheta a carvão,
ampulheta a nuvem,
aroma a senão.

Uma voz que grita
ri,
uma burla de fingir,
cor de zorro
a fugir.

Sunday, August 30, 2020

I am lost
and you are too
oh whatever
shall we do?

Your whole body
is a sonnet
but who is
whose pet?

Your neck rhymes
with your pale chest
I made them both
my bird nest.

There’s no path
there’s no way
we won’t meet
another day.

I am lost
and you are two
half is me
and half is you.

Friday, June 26, 2020

O rio que desce

Nos teus lábios, um rio -
sumo de fruta doce -
corre apressado, com brio,
como se um cavalo fosse.

Dos teus lábios pinga sereno,
pelo peito suave e alvo,
não sei se mel ou se veneno,
será perigo ou estarei salvo?

O teu ventre é vale ventoso,
o rio desce em delta aberto,
evita as frinchas de cada osso
e vai direito ao sítio certo.

Com caudal já reduzido,
o curso de água rouco
desagua sem libido
no estuário do teu corpo.

A Varanda

Na varanda há
dois copos de café
e tu falas comigo
através de canções.

Tu és água e eu sou pedra,
escorres por mim lenta
e erodes a casca
que me cobre e aperta.

As folhas caem
mais lentas das árvores,
lentas como pétalas,
cinco centímetros por segundo.

As tuas palavras por dizer
pairam entre as grades
e soltam-se da varanda,
lavam-se na chuva.

O que te quero dizer?
Já te disse demais...
Perdoa-me as palavras,
dou-te agora o meu silêncio.