Poemas de Capa Preta
Não sou eu, são as palavras.
Saturday, April 11, 2026
Pavana para uma noite psicadélica
A ilusão da ilusão que nunca o foi. A mulher que lia um porma em tom maternal naquele sonho diurno, naquele meditar de olhos cerrados. O seu peito e ventre e o movimento. A delicadeza que não transbordou. As cores e as luzes que nunca se viram. O nojo e o desprezo se não as ver porque não ver aquelas cores e aquelas luzes naquele momento era uma acusação de nunca vir a viver. Quem sabe até de nunca ter vivido. Ó alma ó flores ó cores. Os insectos que circulavam nos cantos da minha vista, terei eu já vos visto outrora? Será a nossa morada a mesma? Convergimos nós os nossos destinos? Virei eu a ser insecto, serei eu insecto, fui-o outrora? O nojo dissipa-se quando as palavras afloram. Obtemos aquilo que pretendemos. Amaldiçoamo-nos com aquilo pelo que ambicionamos. Couro queimado à flor da nossa pele, do nosso couro. Memórias que transbordais para dentro sem nunca sair desse reino perdido do subconsciente. O foco, o trono que já ganha musgo, as pedras perdidas, as pedras, as feridas. O homem que não consegue ser. O autómato de carne que ambiciona apenas a vir a ter ambições. A carne que se derrete sobre o papel, a letra irreconhecível. A presença, o silêncio, a tinta que não se fixa nunca. Divaga, sonha. A tonta ganha vida e sonha ela mesma pelo papel. Não escorre, mas não de fixa. Tal como a febril procura do sentido, a ambição pelo sentido. A vergonha perde-se. Toda. A única palavra, a palavra de ordem, é nudez. Perante mim, perante todos, tudo nu com tudo. A poesia nua perante o mundo, a ambição despojada das suas vestimentas já apodrecidas. A falta de rumo torna-se em si o rumo e as cores e flores e dores que nunca se tiveram também nunca farão falta. No fim, são e serão sempre as palavras.
Sunday, September 3, 2023
Friday, August 18, 2023
Pastoral: Viver no Campo
João José era pastor
e namorava uma moça da cidade.
Sabia já metade do amor
mas nem metade da verdade.
e namorava uma moça da cidade.
Sabia já metade do amor
mas nem metade da verdade.
Conheceu-a um dia na vila,
à Madalena de cabelos dourados
que cheiram a camomila,
quando lá foi fazer uns recados.
Ela sorriu e trincou o lábio,
deitou-lhe um olhar penetrante.
O pastor tinha pouco de sábio
e tal olhar foi o bastante.
Convidou-a para jantar
Rojões com pimenta preta.
Tangentes ao rio, sob o luar,
Manuseou-a como carreta.
Já mais leve, já mais monge,
acariciava ele Madalena
quando o pastor ouviu ao longe
a sua cabra mais pequena.
Face longa e amuada,
olhar cheio de nada,
"Ou eu ou ela, é bem certo"
disse a musa em decreto.
João José ergueu as calças
e sem a camisola de alças
nem o chapéu de linho
apressou-se no seu caminho.
Os gritos mais e mais perto
o passo célere e aberto
até na encosta mais maldita
ver a doce e breve cabrita.
Num suspiro plácido
segurou-a nos braços.
Surtia um gelo ácido,
carne rija como cabaços.
Gemendo de medo e frio
morreu a cabra pequena
e encontrou-se à beira-rio
com a cabra da Madalena.
As minhas tripas,
apanhem-nas do chão, enfarinhem-nas e comam-nas
O que restar de mijo da minha bexiga, aproveitem-no para regar as plantas do vosso jardim
Façam pó dos meus ossos e deitem-no na fogueira para vos aquecer
Da minha pele façam um pergaminho e escrevam nele um poema com o meu sangue
O meu cérebro, mastiguem-no e cuspam-no sem o engolir.
O que restar de mijo da minha bexiga, aproveitem-no para regar as plantas do vosso jardim
Façam pó dos meus ossos e deitem-no na fogueira para vos aquecer
Da minha pele façam um pergaminho e escrevam nele um poema com o meu sangue
O meu cérebro, mastiguem-no e cuspam-no sem o engolir.
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