Thursday, June 4, 2026

Meditação de pés atados

a cabeça não está vazia,
mas a cabeça parece vazia.
Não, a cabeça está tão cheia
que nada mais se manifesta,
a atividade é nula,
os impulsos são demasiados.
Estado total de morte cerebral.
No limiar da inocência
reside em vão o desespero.
Navegar sem proa por um corpo
De água salobra e turva
que acaba sempre no mesmo abismo
quer nos aventuremos por estibordo
quer por bombordo
quer jusante
quer montante
quer até por água abaixo.

Saturday, April 11, 2026

Pavana para uma noite psicadélica

A ilusão da ilusão que nunca o foi. A mulher que lia um poema em tom maternal naquele sonho diurno, naquele meditar de olhos cerrados. O seu peito e ventre e o movimento. A delicadeza que não transbordou. As cores e as luzes que nunca se viram. O nojo e o desprezo de não as ver porque não ver aquelas cores e aquelas luzes naquele momento era uma acusação de nunca vir a viver. Quem sabe até de nunca ter vivido. Ó alma ó flores ó cores. Os insectos que circulavam nos cantos da minha vista, terei eu já vos visto outrora? Será a nossa morada a mesma? Convergimos nós os nossos destinos? Virei eu a ser insecto, serei eu insecto, fui-o outrora? O nojo dissipa-se quando as palavras afloram. Obtemos aquilo que pretendemos. Amaldiçoamo-nos com aquilo pelo que ambicionamos. Couro queimado à flor da nossa pele, do nosso couro. Memórias que transbordais para dentro sem nunca sair desse reino perdido do subconsciente. O foco, o trono que já ganha musgo, as pedras perdidas, as pedras, as feridas. O homem que não consegue ser. O autómato de carne que ambiciona apenas a vir a ter ambições. A carne que se derrete sobre o papel, a letra irreconhecível. A presença, o silêncio, a tinta que não se fixa nunca. Divaga, sonha. A tinta ganha vida e sonha ela mesma pelo papel. Não escorre, mas não de fixa. Tal como a febril procura do sentido, a ambição pelo sentido. A vergonha perde-se. Toda. A única palavra, a palavra de ordem, é nudez. Perante mim, perante todos, tudo nu com tudo. A poesia nua perante o mundo, a ambição despojada das suas vestimentas já apodrecidas. A falta de rumo torna-se em si o rumo e as cores e flores e dores que nunca se tiveram também nunca farão falta. No fim, são e serão sempre as palavras.