Sunday, September 3, 2023

Por mais que o tentes esconder 
há em ti um brilho raso. 
Um brotar em flor do ser, 
um ir mais além que o ocaso. 

Friday, August 18, 2023

Pastoral: Viver no Campo

João José era pastor
e namorava uma moça da cidade.
Sabia já metade do amor
mas nem metade da verdade.

Conheceu-a um dia na vila,
à Madalena de cabelos dourados
que cheiram a camomila,
quando lá foi fazer uns recados.

Ela sorriu e trincou o lábio,
deitou-lhe um olhar penetrante.
O pastor tinha pouco de sábio
e tal olhar foi o bastante.

Convidou-a para jantar
Rojões com pimenta preta.
Tangentes ao rio, sob o luar,
Manuseou-a como carreta.

Já mais leve, já mais monge,
acariciava ele Madalena
quando o pastor ouviu ao longe
a sua cabra mais pequena.

Face longa e amuada,
olhar cheio de nada,
"Ou eu ou ela, é bem certo"
disse a musa em decreto.

João José ergueu as calças
e sem a camisola de alças
nem o chapéu de linho
apressou-se no seu caminho.

Os gritos mais e mais perto
o passo célere e aberto
até na encosta mais maldita
ver a doce e breve cabrita.

Num suspiro plácido
segurou-a nos braços.
Surtia um gelo ácido,
carne rija como cabaços.

Gemendo de medo e frio
morreu a cabra pequena
e encontrou-se à beira-rio
com a cabra da Madalena.
Não sei se é truque de magia,
não sei se é apenas o sabor do dia
como se a vida fosse
a carrinha de gelados
mais rápida do mundo...
 Não tivesse eu aprendido ciência,
o mundo ainda caberia na minha mão
tão pequena quanto ela era em criança.

Mas, porque aprendi que a Terra gira à volta do Sol
e mais meia dúzia de fórmulas matemáticas,
vou sempre duvidar de ti e dos teus suspiros.
As minhas tripas, apanhem-nas do chão, enfarinhem-nas e comam-nas
O que restar de mijo da minha bexiga, aproveitem-no para regar as plantas do vosso jardim
Façam pó dos meus ossos e deitem-no na fogueira para vos aquecer
Da minha pele façam um pergaminho e escrevam nele um poema com o meu sangue
O meu cérebro, mastiguem-no e cuspam-no sem o engolir.

Thursday, August 3, 2023

Poema de dois gumes

Mais vale
desconto
Na carteira 
Que vontade
De ir ver
A Terra inteira

Wednesday, August 17, 2022

Sou poeta, sim, mas não trovador.
Não me borboleteiam emoções no peito.
Na verdade não me borboleteia coisa nenhuma
em parte alguma.
Porque as borboletas estão lá fora
e eu estou cá dentro
e nunca engoli uma borboleta
nem dei à minha alma assente na Terra asas
nem projetos de asa
nem se sequer tecido com que se possa
fazer asas
nem barbatanas
nem qualquer outra estrutura orgânica
ou mecânica
motriz.
A alma em si não é orgânica
nem mecânica.
As ideias ora vão para fora
ora voltam para dentro,
mas nunca ficam a fazer sala,
nunca deixo que de mim se aproveitem
sem pagar renda.
Assim, sempre que a cobro
certifico-me que não resta renda
com a qual tricotar asas.
Mantenho a minha hegemonia
sobre o meu corpo
e tudo o que nele reside.