Friday, August 18, 2023

 Não tivesse eu aprendido ciência,
o mundo ainda caberia na minha mão
tão pequena quanto ela era em criança.

Mas, porque aprendi que a Terra gira à volta do Sol
e mais meia dúzia de fórmulas matemáticas,
vou sempre duvidar de ti e dos teus suspiros.
As minhas tripas, apanhem-nas do chão, enfarinhem-nas e comam-nas
O que restar de mijo da minha bexiga, aproveitem-no para regar as plantas do vosso jardim
Façam pó dos meus ossos e deitem-no na fogueira para vos aquecer
Da minha pele façam um pergaminho e escrevam nele um poema com o meu sangue
O meu cérebro, mastiguem-no e cuspam-no sem o engolir.

Thursday, August 3, 2023

Poema de dois gumes

Mais vale
desconto
Na carteira 
Que vontade
De ir ver
A Terra inteira

Monday, October 3, 2022

Quadra oculta da Emília

Emília não matou o marido, não...
Não pegou no cutelo, não teve arrojo.
Apenas sonha com a doce prisão
e sofre estóica, abraça-o com nojo.

Emília do Segundo Esquerdo v2

Emília casou de branco.
Gostava dele pela alma,
da sua inerente calma
ainda que ele fosse manco.

Agora nada é como d'antes.
Ora lhe oferece diamantes,
ora lhe oferece tabefes
por ela não dizer bem os éfes.

Emília preparou a sopa
e cozeu o vitelo em chama lenta.
Foi lavar a roupa
e pegou numa camisa cinzenta.

Encostou-a a si
e acariciou o tecido —
queria ir-se dali,
queria fugir do marido.

Ele chegou, comeu o vitelo
e quis tê-la nos braços.
Ela gritou, pegou no cutelo
e cortou-o em pedaços.

Agora Emília sorri aberto
bem trancada atrás das grades,
não quer ninguém por perto
e nada lhe dá saudades.

Já não tem diamantes, já não tem nada
mas antes que anoiteça
reclina a cabeça
e dorme descansada.

Wednesday, August 17, 2022

Sou poeta, sim, mas não trovador.
Não me borboleteiam emoções no peito.
Na verdade não me borboleteia coisa nenhuma
em parte alguma.
Porque as borboletas estão lá fora
e eu estou cá dentro
e nunca engoli uma borboleta
nem dei à minha alma assente na Terra asas
nem projetos de asa
nem se sequer tecido com que se possa
fazer asas
nem barbatanas
nem qualquer outra estrutura orgânica
ou mecânica
motriz.
A alma em si não é orgânica
nem mecânica.
As ideias ora vão para fora
ora voltam para dentro,
mas nunca ficam a fazer sala,
nunca deixo que de mim se aproveitem
sem pagar renda.
Assim, sempre que a cobro
certifico-me que não resta renda
com a qual tricotar asas.
Mantenho a minha hegemonia
sobre o meu corpo
e tudo o que nele reside.

Wednesday, July 27, 2022

Tabela espelho

Dói absolutamente
viver ausente.
Não menos dói
viver-se ciente
de que se é ausente.
E nada dói
com tanto fervor
que não sentir
essa mesma dor.