Saturday, April 11, 2026

Pavana para uma noite psicadélica

A ilusão da ilusão que nunca o foi. A mulher que lia um porma em tom maternal naquele sonho diurno, naquele meditar de olhos cerrados. O seu peito e ventre e o movimento. A delicadeza que não transbordou. As cores e as luzes que nunca se viram. O nojo e o desprezo se não as ver porque não ver aquelas cores e aquelas luzes naquele momento era uma acusação de nunca vir a viver. Quem sabe até de nunca ter vivido. Ó alma ó flores ó cores. Os insectos que circulavam nos cantos da minha vista, terei eu já vos visto outrora? Será a nossa morada a mesma? Convergimos nós os nossos destinos? Virei eu a ser insecto, serei eu insecto, fui-o outrora? O nojo dissipa-se quando as palavras afloram. Obtemos aquilo que pretendemos. Amaldiçoamo-nos com aquilo pelo que ambicionamos. Couro queimado à flor da nossa pele, do nosso couro. Memórias que transbordais para dentro sem nunca sair desse reino perdido do subconsciente. O foco, o trono que já ganha musgo, as pedras perdidas, as pedras, as feridas. O homem que não consegue ser. O autómato de carne que ambiciona apenas a vir a ter ambições. A carne que se derrete sobre o papel, a letra irreconhecível. A presença, o silêncio, a tinta que não se fixa nunca. Divaga, sonha. A tonta ganha vida e sonha ela mesma pelo papel. Não escorre, mas não de fixa. Tal como a febril procura do sentido, a ambição pelo sentido. A vergonha perde-se. Toda. A única palavra, a palavra de ordem, é nudez. Perante mim, perante todos, tudo nu com tudo. A poesia nua perante o mundo, a ambição despojada das suas vestimentas já apodrecidas. A falta de rumo torna-se em si o rumo e as cores e flores e dores que nunca se tiveram também nunca farão falta. No fim, são e serão sempre as palavras.